Introdução
Eu tenho fugido de me escrever há muitos anos. Eu me arrisco a parecer patética nesse diálogo comigo mesma, mesmo que pareça besteira ou complexo feminino de autocobrança. Eu escrevo desde que eu fui alfabetizada, sendo que o meu sonho sempre foi algo em torno de publicar um livro e/ou ser professora. No entanto, eu me dediquei bastante a traçar caminhos que justificassem ignorar qualquer um dos dois sonhos.
Enquanto brasileira, mulher, negra e pobre, eu sempre sonhei com um mundo igualitário. Com amigos que me aceitassem, com um grande amor, com uma família que não me achasse esquisita ou um ser a parte, eu sempre sonhei em me encaixar em algum grupo (tanto que hoje em dia eu sou a rainha da criação de grupos online). Mesmo que minha condição social significasse uma barreira aos meus sonhos, eu nunca levei tais fatos como anteparo para os meus estudos, para o exercício da minha fala, para a minha comunicabilidade como um todo ou para minha ousadia em tornar os meus sonhos reais.
Sonho grande pra mim sempre significou amar com todo o amor do mundo. Assim, eu sempre fui a pessoa que agiu como achava que teria que agir, mesmo que logo em seguida levasse uma negativa o que fazia com que eu desatasse em choro, sentimental e aberta aos sentimentos que sou.
Ainda que o choro possa socialmente significar fraqueza, eu entendo que o ato de chorar é um ato de libertação coletivo. É a maior expressão humana de sensibilidade e é na sensibilidade que é possível encontrar a necessidade atendida e não atendida dos outros, bem como tornar real a desejada intimidade, seja ela de natureza física, emocional ou espiritual. Nós choramos quando nascemos, nós choramos quando sentimos dor física ou emocional, bem como choramos de emoção, de raiva, de alegria, de felicidade... quando perdemos um ente querido.
Os meus choros foram majoritariamente de raiva ou injustiça - acredito que esses dois andem juntos e de mãos dadas. Eu chorei quando me dei conta que eu não poderia ser bailarina, quando eu não tive os desejados lápis de cor de 36 cores, e por tantos outros como não ser chamada para dançar na festa junina, por ser ignorada por 'amigos' e outras tantas ausências, desejos e situações.
O que me faz pensar que a minha vida foi movida pela escassez e sempre que ela ficava evidente, eu dava um jeito de contorná-la. Eu nunca deixei de sonhar, de acreditar... E bem, a análise terapêutica aconteceu para ajustar as forças e permitir que a vida pudesse ser mais leve, agradável, feliz e com significado.
Hoje eu consigo acreditar que apesar de tantos sofrimentos em que o ser humano está fadado a passar, seja por sua condição de gênero, classe, raça, localização geográfica, posição política e tantas outras variantes, a vida pode ser leve e agradável. E ainda, que possamos caminhar para um caminho de diálogo em que seja possível a construção de uma sociedade comunitária, sustentável e solidária.
Eu não sou o tipo de pessoa que joga flores para policiais perante uma agressão, mas, eu sou aquela que entende que o trabalho escolhido por aquele indivíduo veio de muitos contextos dos quais eu talvez jamais tenha acesso. Enquanto humidade e sociedade globalizada, eu entendo que todos estamos feridos principalmente pela ausência de escolha no ato de nascimento, tanto pelo tempo que interromperemos a estadia nesse planeta.
Por enquanto, eu ainda não sei aonde minhas palavras chegarão, mas eu acredito que a jornada significará talvez, muito mais do que a síntese desse trabalho.
Ainda tenho certeza que, eu sou toda coração.
Aline Ernesto,
15 de setembro de 2019.
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